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O poder da linguagem oral

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Por Juliana Carreiro

 

A música “Passarinhos” do Emicida, está entre as mais ouvidas da minha playlist no Spotify.  Os ouvidos mais acostumados com a norma culta da nossa língua, podem se incomodar quando se deparam com a expressão ‘tamo tipo’, utilizada pelo compositor. Reconhecido como um grande pensador do nosso tempo, Emicida tem conhecimento de todas as regras da língua portuguesa. Portanto, a escolha por este termo está na identificação com o modo como falam os moradores da periferia da Zona Norte de São Paulo, onde nasceu e cresceu.   

 

Aqueles que ‘torcem o nariz’ ao ouvirem o que chamam de ‘erro’ precisam conhecer a expressão ‘preconceito linguístico’. De acordo com a professora Liliane Pereira da Silva Costa, doutora em Linguística Aplicada pela Unicamp: “O preconceito linguístico é uma forma de discriminação ligada ao modo como algumas pessoas falam ou escrevem, podemos dizer que está interligada a uma forma de discriminação social, uma vez que muitas vezes as pessoas com menos recursos, nem sempre tiveram acesso à educação, assim não se apropriaram da dita norma culta, a norma de prestígio em nossa sociedade. É preciso lembrar também que vivemos em um país continental com diferentes formas de falar, os diferentes sotaques são uma grande riqueza, também podem fazer com que os falantes de determinadas regiões também sofram preconceito, não existe um sotaque melhor que o outro, certo ou errado”

 

Outro pensamento comum entre alguns intelectuais é considerar a linguagem escrita mais importante do que a falada. Nesse caso, é importante ressaltar que estamos em um país onde boa parte da população ainda sofre com o chamado ‘analfabetismo funcional’. Um levantamento feito em 2020 pelo Instituto Paulo Montenegro, em parceria com a ONG Ação Educativa, aponta que 3 em cada 10 brasileiros, na faixa de 15 a 64 anos, sabem identificar as letras e as palavras, mas não conseguem entender o que leram. 

 

 A linguagem utilizada pelos podcasts, aparece nesse contexto como uma ótima alternativa para quem precisa se comunicar com um grande número de pessoas. Segundo a professora: “A linguagem oral é utilizada em diversos contextos, na sociedade contemporânea com uso das tecnologias digitais de comunicação e informação. Certamente, ajuda bastante pessoas que não tiveram acesso à escola ou aquelas que mesmo frequentando os bancos escolares não tiveram a oportunidade de desenvolver habilidades de leitura e escrita adequadas ao ano/série cursadas”. 

 

Vale lembrar que a sabedoria pode estar muito distante das páginas dos livros, e que restringir o conhecimento popular às regras gramaticais pode ser uma visão bastante limitada. É o que conclui a professora Liliane: “A sabedoria não está no meio (oral ou escrito), e sim no conteúdo, o que se diz. Não é necessário dominar a norma culta para ocorrer a comunicação, é preciso sempre lembrar que é necessário adequar a linguagem ao contexto comunicacional, então, nem sempre fazemos uso da norma culta, por exemplo, em uma conversa cotidiana”. 

 

O podcast é um dos meios de comunicação que melhor se utiliza da linguagem cotidiana para passar suas mensagens, talvez seja por isso que o número de ouvintes cresce a cada dia.

 

Dica de podcast:  

Como já falamos bastante sobre a importância da linguagem oral pra nossa comunicação, trago uma dica de podcast que enaltece os livros. Hoje, a dica é o Papo de Livro, o programa em áudio, da TAG, um clube de assinaturas de livros. Os episódios comentam obras nacionais e internacionais, falam sobre autores, como Clarice Lispector e Pablo Neruda; e sobre temas específicos, como o Dia da Consciência Negra. As apresentadoras Fernanda Grabauska e Rafaela Pechansky, editoras da TAG,  também entrevistam editores, autores e especialistas da área. Quer voltar a ler, mas não sabe qual obra escolher? Terminou um livro agora e procura outro para substituí-lo? Elas certamente vão poder te ajudar. 

 

 

 

 

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